Apague essa luz, menina

Tem coisas que a gente só enxerga no escuro. As estrelas, por exemplo. Experimenta deixar a noite cair para ver entre as nuvens algumas delas brilhando. Porque céu limpo hoje em dia é coisa rara. Melhor é inventar brechas. Mas não como aquelas frestas de porta entreaberta que deixam a luz do corredor chegar bem rente ao travesseiro. Essas não nos deixam dormir nem sonhar profundo, perdidamente na escuridão.

Os vaga-lumes também, só aparecem quando a luz apaga. A televisão, de preferência tem que estar desligada. Encontrar um desses voando é como achar um trevo de quatro folhas. Se um deles aparecer, nem adianta pegar o chinelo e partir atirando contra o bichinho. Não precisa ter medo. Só se for uma cobra. Aí, sim, corra e pegue um tijolo. Chinelinho não vai adiantar nesse caso.

Por falar em cobra. Lembra do jogo da cobrinha? Aquele do celular que trocava de capa. Diz a lenda que o aparelho tinha botões, um para cada número, e uma anteninha. A gente quase se matava para saber de quem era a vez. Até que a bateria acabava e lavávamos uma bela bronca.

Outra coisa que de luz apagada fica ainda mais gostosa… Olha a malícia, menina! Estou falando do parabéns-para-você-nessa-data-querida, que faz muito mais sentido com os interruptores desligados. As velas são acesas para iluminar os desejos de um futuro mais doce que o bolo, que agora já está misturado com a cera derretida do número dois e do cinco, porque essa lista de coisas boas que você pediu de olhos abertos deve ser grande.

Mas feche os olhos. Os dois ao mesmo tempo. Confie. Experimente ver aí dentro os bambolês do É o Tchan, a piscina de plástico, os shows ao vivo cantados a vidros fechados no banco do carro, o CD das músicas em inglês que até hoje enrolam línguas por aí. Como lembrar do naufrágio mais famoso do cinema sem lhe ouvir cantar?

– Ai nindjai nindjoufin, nindjafim, nindjooooufin…

Você transformou o “every night in my dreams, I see you, I feel you” da Celine Dion em algo para ser sentido de olhos fechados, principalmente nas notas prolongadas. Aliás, que ironia: a garota dos olhos bem abertos e das luzes acesas se sentir tão bem no escuro. A fotografia de quando você chacoalhou os cabelos feito propaganda de creme para cabelo não me deixa mentir. Chego até a duvidar que você tenha medo de escuro até hoje.

Todas as noites tinham que ser iluminadas pela luz do corredor. Pouco importava se os mosquitos de praia aproveitavam a brecha para fazer banquete e zumbido a madrugada toda. E daí que a televisão ficava ligada até começar a chiar e chuviscar quando acabava a programação? Ainda bem que inventaram aquela lâmpada que acende ao ligar na tomada. Só serve para isso mesmo: espantar o medo de quem ainda vai aprender a confiar na vida. Por isso, apague essa luz, menina. Deixe a grande mulher que você se tornou iluminar o caminho.

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Eu a escolho todos os dias

Eu estava aqui com a cabeça deitada na barriga dela. Tão quentinha. Eu sei que ela não vai querer se mexer. Está parada, congelada em pleno 50° C, só pra não me acordar. Me virei para o rosto dela com o olhar entreaberto da fome que já me comia por dentro, mas não queria levantar. A única coisa que ocupou o lugar da vontade de comer foi a lembrança: se eu não estivesse no supermercado naquele dia em que ela foi comprar ingredientes da pizza que faria com as amigas, não teria o melhor aconchego.

Todos os dias acordo às 7 horas, sempre feliz porque sei que ela me escolheu para amar, entre tantos outros olhares cheios de encanto. Foram dois anos de espera. Ela nunca me deixa esquecer quantos dias se acabaram em noite até que me encontrou por obra do destino. Porque ela diz que, cá entre nós, o acaso não cabe.

Hoje são as noites que ganham os dias. E eu durmo cedo. Procuro por ela, que nem sempre vem. Mas tudo bem. Sei que quando chega traz amor, por isso a escolho todos os dias, assim como ela me quis antes mesmo de eu existir. Nascemos no mesmo dia, com uma diferença de uns vinte e tantos aniversários.

Logo completarei dois anos. Ou seriam quatorze? Não sei desses cálculos de humano. Ela me diz que tem a ver com o jeito de amar:

Os cães amam sete vezes melhor que as pessoas, por isso vivem sete vezes menos.

Eu acredito. E creio ainda mais que o amor é o mesmo, sem necessidade de tradução nem cálculos de conversão. Porque só quem ama perdoa uma mijada no ventilador ligado. Eu pedi desculpas, só queria tomar um ar fresco. Ela me perdoou. E só dá o perdão quem é capaz de amar sete vezes melhor. É disso que tenho certeza quando encosto a minha pata na dela, ainda recostado na paz daquela barriguinha – barrigona jamais, que eu sei que ela não gosta – antes do rabo me abanar em busca de matar aquela fome que senti durante esse texto todo.

Por Ócio Suassuna

Sobre diluir o Adeus

 

Dizer adeus dói. Porque é sempre ele quem diz. Daqui não vai mais. Fim de linha. C’est fini*. Acabou. A nós cabe aceitar o inevitável. Ou não.

Já pensou na possibilidade surpreender o fim? Dar um drible no cínico. Mostrar para ele quem manda dentro e fora desse rostinho cheio de caminhos abertos pela água com gosto de mar amargado pelo silêncio. E diante do nada, sairia aquela cara de desdém, de nem fez cócegas, de nem doeu. Essa que a gente aprendeu logo cedo quando engoliu o choro e diluiu a dor por causa do joelho ralado, até que o ardume se refizesse em riso tolo diante das palhaçadas de algum adulto desesperadamente engraçado.

Na vida deveria existir um curso em que todos fossem admitidos sem vestibular, sem ter que provar nada além da própria humanidade. Assim, seria fácil soltar a mão e se desprender aos poucos, ao invés de deixar a dor correr livre em todas as direções como uma criança mimada, desesperada porque a vida disse não.

Que bonito seria ver você dizer adeus sem despejar uma lágrima. Eu já comecei a treinar para isso. A comida que você faz generosa de sal é todos os dias a última. As suas frases velhas de escracho – de “quer ver onde fica a minha paciência?” apontando para um lugar que só a polidez de Dercy Gonçálvez definiria bem – chegam como novidade aos meus ouvidos. Até o seu jeito de se proteger dos meus abraços com medo de cair de novo durante um passo “mucho loco” de tango que só eu sei errar me faz sentir cheiro de amor novo.

Eu vou esquecer por aí seus potes que você parece ter catalogado por tipo e cor de tampa, só pra ouvir você reclamar que dali a três dias não vai ter comida. Vou pedir massagem nas costas, nos pés, com a maior cara de pau e cheia de argumentos e súplicas. Porque você vai negar de pronto para depois ceder aos meus encantos. E, principalmente, porque eu não precisaria me elaborar para sentir o carinho que é meu desde sempre. Porque a gente faz uma par equilibrado e “porreta” de áries com libra, de Iansã com o Ogum.

Você não quer partir. Se isso acontecer, quem vai cuidar da casa, dos cachorros, das consultas médicas e, principalmente, dos potes de marmita? Ao mesmo tempo ameaça: “

— Não vou ficar pra semente.

Não serei egoísta. Direi que aguento o baque. Mas, enquanto isso, vou preparar um escudo feito das memórias mais bonitas e simples que fazemos todos os dias, que é pra eu abraçar quando o adeus que nem eu nem você saberíamos diluir tomar conta do seu lugar.

*Zéfini (em tradução livre)

Potes vazios

O carnaval já passou. Aí vem a Páscoa. Logo o tempo atropela a vida, já passa o dia das crianças voando sem capa de heroi nem heroína. Lá vem outro Natal. Outro ano novo para dias velhos. Nada de você. Você sem nome, cara, endereço e rumo que lhe traga aqui, onde a fé virou ficção de vez.

Enquanto isso eu abro a porta do armário da cozinha e o vazio nunca foi tão cheio, apinhado, bagunçado, quase confuso. Só que fica colorido de repente. Aparecem uns sem tampa. Algumas tampas retorcidas.

O que prevalece é um desassossego de tampinha em potinho que não fecha. Todos vazios. Para cada um eu dou um nome. Vou organizando a bagunça e encontro vários Thiagos, alguns Eduardos, um ou outro João, mas nenhum você.

Num gesto de niilismo indulgente, pego um, guardo o queijo e fecho a porta da geladeira pra só abrir quando tiver fome.